terça-feira, 18 de novembro de 2008

A caverna

Era uma vez uma caverna. Nessa caverna viviam muitos bichinhos, mas nenhum urso. A grande maioria era cega e albina.

Era uma vez uma caverna. Nessa caverna vivia um morcego, cego e não-albino. O morcego era frugífero, quando ficava com fome, saía da caverna para comer, ao crepúsculo, e retornava ao alvorecer. De volta à caverna, o morcego dormia em posição não-convencional e excretava seu guano[1].

Era uma vez uma caverna. Nessa caverna não só vivia um como milhares de morcegos. Todos comiam frutas e excretavam guano.

Era uma vez uma caverna. Nessa caverna vivia uma centopéia, cega e albina. Ela se alimentava do guano dos morcegos. Suas amigas se alimentavam de guano dos morcegos. Seu ex-namorado se alimentava de guano dos morcegos. Sua família se alimentava de guano dos morcegos. Todo seu círculo social se alimentava de guano dos morcegos.

Era uma vez uma caverna. Nessa caverna viviam 9847239873928732 bactérias. Elas tinham DNA difuso, alguns ribossomos e flagelos[2]. Elas eram meras unicelulares, e procariontes, ainda por cima. Ninguém ligava para elas. Elas não eram cegas nem albinas, pois nem mesmo tinham olhos ou pele. E elas pouco se importavam com isso, viviam em seu universo à parte, não ligavam para fofocas.

 

Era uma vez uma caverna. Nessa caverna havia o clubinho dos decompositores. Era um clubinho fechado, seus integrantes eram conhecidos por serem nojentinhos. Nojentos no sentido físico da palavra, do tipo causadores de “argh”. Eles se reuniam toda quarta-feira para fumar cachimbo, beber Red Label e jogar poker ouvindo Jorge Vercilo. Porém a nova geração de decompositores achava isso sem graça, e preferiam se reunir as sextas, sábados e vésperas de feriados para fumar maconha, beber São Jorge e jogar dominó.

 

O sertão vai virar mar
Dá no coração
O medo que algum dia
O mar também vire sertão
Vai virar mar
Dá no coração
O medo que algum dia

O mar também vire sertão” sobradinho, Sá  e Guarabira


Era uma vez uma caverna. Ela não ficava no sertão. Mas um dia, quando o Sertão virou mar, ela foi inundada. E esse foi o seu fim, pois suas paredes não sabiam nadar.

 



[1] Guano é o nome dado as fezes dos morcegos. Pode ser usado como um excelente fertilizantedevido aos seus altos níveis de nitrogênio. O solo que é deficiente em matéria orgânica pode tornar-se mais produtivo com a adição de fezes.

O guano é composto de amoníaco, ácido úrico, ácido fosfórico, ácido oxálico, ácido carbônico, sais e impurezas da terra.

 

[2] O flagelo bacteriano é um tubo oco, com 20 nanômetros de espessura, composto pela proteína flagelina, de forma helicoidal com uma dobra à saída da membrana celular chamada "gancho", que faz com que a hélice fique virada apara o exterior da célula.

Um comentário:

Felipe disse...

E elas pouco se importavam com isso, viviam em seu universo à parte, não ligavam para fofocas.

VERDADE!!! hehehe