quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Bolo solado

Hoje levantei contra a minha vontade, que preferia permanecer na cama, contra meu organismo, que ainda estava dormindo, contra meu corpo que ainda estava cansado.
Não lembrava do que tinha sonhado pois não havia tido sonho algum, pois não se sonha em sono profundo, e, como disse, acordei antes da hora, antes do sono ficar leve e me fazer sonhar, antes de meu corpo estar preparado. Mas é assim quase todos os dias.
Como eu muitas pessoas acordavam contra a vontade e outras já estavam de pé fazia muito. Despertadores não deveriam existir, não há nada como despertar naturalmente assim como dormir quando se tem sono. Mas como eu muitas pessoas o faziam, não dormiam quando queriam, não acordavam quando queriam. Ser despertado em sono profundo é como abrir o forno do bolo que assa antes da hora. Ele sola. E meu dia foi solado, como muitos outros. Contra a vontade tive que me banhar rapidamente, comer rapidamente, falar rapidamente com os outros despertos e chegar rapidamente ao trabalho. No trabalho realizei atividades medíocres que qualquer um poderia realizar, atividades que não dependiam da minha opinião, dos livros que já li e dos filmes que já vi, do meu amor por gatos, da minha personalidade, da minha aparência, do meu cheiro, das músicas que conheço, das minhas crenças religiosas, do meu conhecimento de mundo, e, na verdade, não muito do meu conhecimento acadêmico. Ou seja, caso eu passe a não existir de uma hora para outra, qualquer outro fará meu trabalho, e a sensação de substituibilidade é terrível. Não gosto de atividades impessoais, não gosto de ser substituível, não gosto de ser medíocre e não gosto de me sentir cansada. Por isso eu bebi muito café, bebi muita água, e fui muitas vezes ao banheiro fazer xixi. Saí do trabalho e fui para a faculdade, onde estudei coisas que não queria, para depois assistir uma aula que não entendia (e nem tinha vontade de), e depois fiz uma prova da coisa que não queria estudar, que mesmo que eu tivesse ido bem já teria sido horrível por si só, mas ter ido mal tornou tudo pior. Mas apenas um pouco pior, realmente bem pouco. Cheguei tarde em casa como todos os dias pois esse é o horário do término de minhas obrigações diárias. Acabei me entregando a 3 pequenos prazeres, um longo banho, websocialização e livros. Me autocensurei após perceber quanto tempo havia perdido, que poderia estar dormindo, me forcei a abandonar a fonte de prazer, me forcei a dormir, percebendo amargamente que o outro dia seria exatamente igual, mas voltei atrás em minha opinião sobre estar perdendo tempo com meus pequenos prazeres: estava ganhando vida. Programei a abertura da porta para cedo, muito cedo, e adormeci no forno, tentando sonhar que não solaria.

8 comentários:

Funny disse...

Que desabafo! A última frase é digna de quote! :)

Rach disse...

Excelente analogia! Louvável final. Digno de quote. [2]

(Lua* disse...

Ainda não tive oportunidade de ler todos os posts do blog, mas (para mim)esse foi o mais íntimo, não algo que nasceu, como os outros que são incríveis e extremamente criativos, mas algo que precisava ser gritado.

Rafiki disse...

Muito bem dito. Alguns trechos realmente ecoaram nas curvas de minha mente circular.

O que mais me irrita é profanar o meu sono dos deuses do norte e ser mediócre, e já vejo futuro sem mistério.

Fabrício disse...

Na rotina, não sole.

Pense que o melhor dos bolos foi batido, amassado e esquentando antes do seu sabor.

Um café para nós, indefesos frente à rotina.


Abraço

Paulo Barillari disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paulo Barillari disse...

rotina nada mais é do que supostas obrigacoes da vida que foram, de certa forma colocadas frente a voce, mas ningém disse que precisa ser assim...voce escolhe

procure mudar o que pensa ser imutavel...

Voce escreve muito bem...
fazia muito tempo que nao lia um texto assim, parabens!

Thauan Rodrigo disse...

PUTA QUE PARIU! Você descreveu minha vida, vey *-*
O texto tá magnífico!
Sou seu fã!