quinta-feira, 17 de junho de 2010

HP Laser Jet P1005 - A viagem

Desde que estava sendo montada, HP laser jet P1005 tinha grandes ambições. Sonhava em imprimir documentos importantes que mudariam o curso do mundo, e ser alimentada com as melhores tintas originais. Seria conectada às melhores máquinas, e teria um estabilizador só para ela. Por ela passariam os papéis mais finos, fabricados com a melhor celulose.

Achou extremamente ultrajante a forma como foi enclausurada numa fedorenta caixa de papelão, em meio a isopor e plásticos. Ainda por cima o manual estava numa posição que a incomodava. Mas ela se resignou, sabendo que o melhor estaria por vir.

Viajou algum tempo por terra em meio a suas semelhantes e algumas multifuncionais esnobes, depois muito e muito tempo por mar. No compartimento de carga conheceu muita gente. Havia as placas de vídeo, que viviam discutindo entre si. Algumas desejavam, assim como a HP laser jet P1005, participar de coisas importantes em famosos escritórios de arquitetura, ou no caso das placas cult, trabalhar com arte, mas a grande maioria queria ir para a casa de algum viciado em jogos. Todas discutiam entre si por causa de suas aspirações divergentes. Os que aspiravam MMOs eram os mais chatos, acham-se superior a todos os outros. Porém todos se juntavam para humilhar uma dupla de placas que almejava ir para a casa de garotinhas na puberdade e serem doadas no natal para que elas joguem The Sims 3. Placas de vídeo são naturalmente homofóbicas, e não aceitam esse tipo de atitude de placas macho. HP laser P1005 conheceu também instrumentos musicais simpáticos, alguns processadores cheiradores de pó, muito agoniados, e uns sofás bojudos que nunca nada diziam.

Os dias passavam lentamente sem que nada de novo acontecesse, até que uma manhã, após uma noite de mar agitado, um dos sofás levantou a voz num melancólico canto. Os outros sofás uniram-se a ele e logo cantavam em uníssono a triste melodia. Os instrumentos acompanharam e todo o resto do compartimento parou para escutar, surpresos com o fato dos sofás terem se manifestado. Quando tudo acabou, um dos sofás falou com uma voz grave, um pouco abafada pela sua caixa: “companheiros, nós sofás da mesma linha, temos uma ligação muito forte um com o outro. Somos feitos do mesmo fardo de tecido, somos todos irmãos. É com muito pesar que vos informo que hoje um de nossos irmão faleceu. Antes de embarcarmos, contrabandistas cortaram seu forro, espuma e quebraram parcialmente a estrutura do seu acento esquerdo, introduzindo em seu interior os companheiros que vocês agora podem notar”. Então todos olharam para a enorme caixa do sofá falecido, e lá constavam mais de 40 perfumes e 15 pares de tênis Nike em meio à madeira, espuma e couro sintético. “Nosso irmão vinha resistindo há algum tempo, mas devido aos sacolejos da embarcação na última noite, sua estrutura não resistiu e ruiu. Peço a todos desculpas pelo incômodo, e muito obrigado pelo respeito que prestaram. Sem mais delongas, tenham um bom dia.”, e nada mais se ouviu dos sofás até o fim da viagem. As atenções então se voltaram para os companheiros ilegais. Todos faziam perguntas ao mesmo tempo, as placas de vídeo brigavam entre si a respeito de quem formulou a melhor pergunta. Quando a situação se organizou um pouco, os perfumes relataram que no começo ficaram amedrontados, pois foram retirados de perto do seu seleto grupo e não sabiam o que estava acontecendo. Depois tomaram consciência da situação, e lamentaram. Esperavam ser vendidos em belas lojas para pessoas sofisticadas, e não como produto de contrabando para oportunistas. Ao contrário dos tênis Nike, que segundo disseram os perfumes, pareciam sempre tranqüilos e gargalhantes, saindo do seu estado de espírito apenas para se preocupar com o companheiro sofá, de quem muito gostavam e que agonizava. Quando foram questionados a respeito do assunto, ele disseram: “estávamos numa bad mas agora estamos de boa, e esperamos que o brother sofá esteja muito de boa onde quer que esteja”.

Sem mais acontecimentos nos dias seguintes, a embarcação enfim chegou ao seu destino.


BWAGGHHHAARGH! O Dragão Alberto indica a leitura do próximo pedaço de história e lhe deseja uma ótima refeição.


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5 comentários:

suelennunes disse...

hahahhaah, genial esse texto.

Anônimo disse...

É interessante como circuitos brincam um com o outro, tendo vida que não vemos e... sentimentos... Sim... SENTIMENTOS. Contanto que seu choro não se transforme em lágrimas (teríamos um suicídio e um homicídio – já se imaginou um chip transbordando lágrimas sobre outro, que duplo curto-circuito teríamos?), não é nada demais imaginar que no mundo eletrônico exista amor e amizade, ódio e inveja, admiração? Afinal, se olharmos para nossos cérebros o que temos? Circuitos elétricos chamados de sinapses, disparados de um neurônio para outro, criando a base de memória para os sentimentos... de que falamos acima.

A diferença é que choramos e não enferrujamos ninguém. Somos máquinas com obsolescência programada, uma grande idéia da Deusa Natureza, copiada descaradamente pelos cientistas que criaram tudo que existe e é usado, hoje em dia, desde um respeitável liquidificador, até uma caixinha de música prostituída, conhecida como micro-system.

Anônimo disse...

obrigada pela mensagem, meus olhos v~eem mais beleza em você, principalmente seus atos e pensamentos escritos =] estou sem crédito... mostrei pra meu pai o seu texto, ele escreveu isso à cima.
você me cativou =]
fernanda

Rafiki disse...

Todos carregam seus sonhos, vamos ver onde foi parar a HP.

Anônimo disse...

preguiça