quinta-feira, 8 de julho de 2010

HP LASER JET P1005 - Parte II

Para compreender essa densa e complexa história, leia primeiro HP laser Jet P1005 - A viagem.

Sem mais acontecimentos nos dias seguintes, a embarcação enfim chegou ao seu destino. HP laser jet P1005 se despediu de seus companheiros quando seguiu viagem. O fez apenas por convenção social. Pouca diferença fazia se eles não estivessem com ela durante a viagem, não se importava para onde iam agora, se conquistariam o que almejavam, nem sentiria saudade.

Finalmente chegando a seu novo destino, quis saber onde se encontrava. Sabia estar em um estoque, em uma prateleira inferior. Sentia algumas semelhantes junto a si, e outras logo acima, mas seus sentidos indicavam que mais além havia todo tipo de coisa, incluindo víveres. Perguntou a uma que parecia saber um pouco das coisas: “onde estou?” disse ela. “No supermercado”. Então a impressora irritou-se profundamente. Supermercado não é o lugar que gente importante vai para adquirir a impressora que imprimirá documentos importantes, secretos, históricos! Por que ela estava ali? Algum jeito teria que dar. Mas que jeito? Restava esperar. Ainda havia chances, talvez alguém a mando de alguém importante viesse comprá-la... Tendo recebido ordens de comprar o importante equipamento, e não e especificação do local, sua mente medíocre o dirigiu ao supermercado. Quem sabe? Restava a ela esperar.

Sua espera não durou muito, dentro de alguns dias um funcionário a buscou e levou até um carrinho, junto a diversos produtos. Quem o conduzia era uma mulher de meia idade, que estava bastante irritada por ter que pegar duas filas, uma para eletrodomésticos e outra para o resto das compras. “Deve ser a empregada de um grande homem. Ainda há esperança”, pensou HP laser jet P1005.

A esperança de HP laser jet P1005 encontrava-se estilhaçada, queimada e com suas cinzas lançadas ao vento um dia após sua saída do supermercado. Em seu lugar o sentimento de frustração ardia tão intensamente como fogo alimentado por uma floresta inteira. A ambiciosa impressora encontrava-se sobre uma bancada, em um quarto cheio de posters no oitavo andar de um prédio em reforma, onde homens em andaimes cimentavam pastilhas nas paredes.

Mal havia chegado ao apartamento, a desencaixotaram e puseram no chão, onde ela pode ver a mulher que a comprara, um homem, um garoto e uma garotinha muito pequena. Enquanto todos remexiam seus cabos, um animal felpudo com olhos curiosos chegou perto e a cheirou desconfiadamente. Logo se desinteressou por ela e partiu para sua caixa e isopor, parecendo estar muito mais entretida por 3 minutos, quando achou uma posição confortável e dormiu. HP laser Jet P1005 foi levada ao quarto do garoto, local onde permaneceria. Foi conectada a uma máquina extremamente taciturna e infeliz, insatisfeita com suas configurações. Esta fingia ou de fato não se importava com os acontecimentos que a circundavam.

HP laser Jet P1005 não poderia se sentir mais infeliz. Seu homem importante transformara-se em um garoto feio e espinhento de 16 anos, a máquina a qual estava conectada era ultrapassada, não havia um estabilizador só para ela. Os finos papéis fabricados com a melhor celulose que habitavam seus sonhos materializaram-se em papeis usados virados para o lado contrário a impressão.

A vida era monótona e frustrante. Não havia muito a ser feito. Imprimia um ou outro trabalho escolar mal feito, alguns recibos. O computador continuava a ignorar sua existência. Só levantava a voz para reclamar (consigo mesmo) de como lhe doíam as partes, que queria se aposentar, que suas configurações não estavam de acordo com o esforço que exigiam de sua pessoa. Se HP Laser Jet P1005 fizesse alguma intervenção ou comentário, fingia não ouvir e continuava a se lamuriar.

Um dia o garoto ganhou um violão. Então HP Laser Jet P1005 passou a imprimir inúmeras músicas cifradas, todas em papel rascunho. Não havia nada mais humilhante que imprimir em papel rascunho. Isso era coisa de impressora mendiga. O gosto do papel anteriormente impresso era horrível. Era como comer vômito. A humilhação era tamanha e a situação irritou-a a tal ponto que, sem saber como, uma vez acabou por “mastigar” o papel, inutilizando-o. A princípio ficou surpresa, depois maravilhada, sabendo que era capaz de fazer algo diferente do que fora programada para fazer. Ficou mais fascinada ao ver a reação do garoto. Ele não estava satisfeito. Ajeitou as folhas dentro dela, ordenou a passagem de uma folha em branco e então reordenou a impressão. HP Laser Jet P1005 desejou mastigar o papel novamente, mas não sabia como o havia feito, e nada aconteceu.

Um dia um dos operadores deixou a máquina ligada com um arquivo aberto, e se foi para outro cômodo. Então apareceu a menina muito pequena, e começou a mexer, bulir ou tentar assassinar o teclado. O mouse começou a gargalhar, a menina agora apertava seus botões compulsivamente, o que lhe fazia cócegas. O computador reclamava, estava recebendo muitos comandos de vez. Infelizmente ela estava clicando sobre o ícone de impressão. HP Laser Jet P1005 perdeu as contas de quantas ordens havia recebido (diferentemente de imprimir um arquivo de várias páginas, era imprimir vários arquivos de uma página só), e começou a trabalhar freneticamente, lançando as folhas no ar. O homem apareceu no cômodo impedindo a menina muito pequena de continuar, desesperado tentando controlar a situação. Antes que pudesse fazer isso, as folhas acabaram. Era uma sensação horrível. Era como vomitar sem nada no estômago, dói-lhe “puxar” o papel inexistente.

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O Acarajé de Natal indica a leitura da terceira parte da incrível história da ambiciosa impressora HP Laser Jet P1005 (essa era a função do Dragão Alberto, mas ele está de férias).


3 comentários:

suelennunes disse...

véééééiii
escreva um livro
"As aventuras da HP laser jet P1005"

tá massa pivete

Rafiki disse...

Eu estava pensando sobre a minha impressora agora, espero que suas ambições sejam menores que a da HP Laser jet P1005, pois ela tem uma vida medícore ao meu lado. De vez em vez ela faz mal criação, mas é até uma boa menina.

Saudações!


Post Scriptum: Eu fui com a cara do Dragão Alberto, espero que ele esteja se divertindo, ele parecia trabalhar demais.

Luanna disse...

Hey Elfa! Esperando ansiosamente a continuação, o texto está excelente, principalmente agora que a HP Laser Jet P1005 resolveu bancar a proletária rebelde.

Pressinto um final trágico, mas espero estar enganada, porque mesmo ambiciosa e “metida” a HP Laser Jet P1005 me cativou com seus grandes sonhos.